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Retirada de lixo do litoral também pode reduzir emissões de carbono, aponta estudo em Angra dos Reis

Retirada de lixo do litoral também pode reduzir emissões de carbono, aponta estudo em Angra dos Reis

Um estudo recente analisou os impactos ambientais das ações do Projeto OPAOMA, iniciativa do Instituto Neuen dedicada à remoção de resíduos sólidos em áreas costeiras de Angra dos Reis (RJ). A pesquisa foi conduzida por Clarice Lima, responsável técnica pelo projeto.

Os resultados mostram algo que muitas vezes passa despercebido. Retirar lixo do litoral não contribui apenas para a preservação das praias e da biodiversidade. Essas ações também podem gerar efeitos positivos na redução de emissões de gases de efeito estufa.

A pesquisa avaliou, de forma detalhada, as emissões associadas à coleta, transporte, destinação e reciclagem dos resíduos retirados do ambiente costeiro.

Os dados indicam que iniciativas locais de limpeza e gestão adequada de resíduos podem produzir impactos ambientais que vão muito além da paisagem.

A crise invisível da poluição costeira

O Brasil possui mais de 8.500 quilômetros de litoral, que abrigam ecossistemas diversos e ambientalmente estratégicos, como manguezais, restingas, recifes de corais, praias e estuários.

Esses ambientes desempenham funções fundamentais para o equilíbrio ambiental, como:

• proteção natural contra erosão costeira
• manutenção da biodiversidade marinha
• suporte a atividades econômicas como turismo e pesca
• regulação de processos climáticos

Apesar dessa relevância, as zonas costeiras estão entre os ambientes mais pressionados pelas atividades humanas.

Grande parte da poluição marinha tem origem em resíduos descartados em terra. Esses materiais acabam sendo transportados por rios, sistemas de drenagem urbana ou pelo descarte direto em praias, costões rochosos e manguezais.

Entre os impactos mais conhecidos estão:

• morte de animais marinhos por ingestão ou enrosco em resíduos
• contaminação da água por substâncias químicas
• introdução de espécies invasoras
• degradação de habitats naturais

O acúmulo de lixo nessas áreas não é apenas um problema visual ou turístico. Trata-se de uma questão ambiental complexa, que afeta diretamente o funcionamento dos ecossistemas costeiros.

O que o estudo analisou

A pesquisa teve como objetivo avaliar as emissões de gases de efeito estufa associadas à gestão de resíduos coletados em zonas costeiras, considerando as operações realizadas pelo Projeto OPAOMA.

Foram analisados quatro aspectos principais:

• emissões geradas pelas operações de coleta e destinação dos resíduos
• emissões evitadas pela reciclagem dos materiais coletados
• saldo líquido de emissões resultante dessas atividades
• possibilidades de compensação ambiental com base em ecossistemas costeiros

Os cálculos foram realizados a partir de metodologias reconhecidas internacionalmente, como o Greenhouse Gas Protocol (GHG Protocol) e ferramentas de análise do ciclo de vida de resíduos.

O que foi encontrado nas praias de Angra dos Reis

Ao longo de 12 meses de atuação, o Projeto OPAOMA realizou 109 operações de coleta em diferentes áreas costeiras da região.

Nesse período, foram retirados:

5.094 kg de resíduos sólidos de praias, costões rochosos e outros ambientes costeiros.

Após a triagem, foi realizada uma análise gravimétrica, técnica que identifica a composição dos resíduos coletados.

Entre os materiais encontrados estavam:

• plásticos de diversos tipos
• metais
• vidro
• papel e papelão
• borracha
• redes e cordas utilizadas em atividades marítimas

Do total recolhido, mais de uma tonelada de resíduos recicláveis foi reinserida na cadeia produtiva por meio da reciclagem.

Reciclar também reduz emissões de carbono

Um dos pontos mais relevantes do estudo está na análise das emissões evitadas pela reciclagem dos materiais coletados.

Quando um material reciclável retorna à cadeia produtiva, diversas etapas deixam de ocorrer, como:

• extração de matéria-prima virgem
• transporte adicional de insumos
• processos industriais mais intensivos em energia

Isso significa que a reciclagem pode gerar uma redução significativa de emissões ao longo do ciclo de vida dos materiais.

Com base nos dados analisados, o estudo estimou que:

a reciclagem dos resíduos coletados evitou a emissão de aproximadamente 1.592 kg de CO₂ equivalente.

Esse impacto climático costuma ser pouco visível, mas representa um benefício ambiental importante associado às ações de limpeza costeira.

O papel do carbono azul

O estudo também analisa a relação entre a gestão de resíduos costeiros e os chamados ecossistemas de carbono azul.

Esse conceito se refere a ambientes naturais capazes de capturar e armazenar grandes quantidades de carbono, como:

• manguezais
• marismas
• pradarias marinhas

Esses ecossistemas podem armazenar mais carbono por área do que muitas florestas terrestres, o que os torna elementos centrais nas estratégias globais de mitigação climática.

Preservar e recuperar essas áreas é uma das formas mais eficientes de contribuir para o equilíbrio climático.

Quanto carbono ainda precisa ser compensado

O inventário de emissões do projeto considerou:

• emissões geradas pelas operações de coleta
• emissões evitadas pela reciclagem
• emissões associadas ao tratamento final dos resíduos

A análise indicou um saldo líquido anual de emissões de 9.487,22 toneladas de CO₂ equivalente.

Como estratégia de compensação ambiental, o estudo aponta que esse volume poderia ser neutralizado com o reflorestamento de aproximadamente 0,08 hectare de manguezal ao longo de um ano.

O dado evidencia o enorme potencial climático desses ecossistemas costeiros.

Muito além da retirada do lixo

Embora o estudo tenha focado nas emissões de carbono, ele destaca que os benefícios da remoção de resíduos vão muito além da dimensão climática.

Entre os impactos positivos estão:

• prevenção da contaminação do solo e da água
• redução da proliferação de vetores de doenças
• proteção da fauna marinha
• preservação da paisagem natural
• melhoria das condições para o turismo
• fortalecimento do ecoturismo

Ou seja, ações de limpeza costeira contribuem simultaneamente para diferentes dimensões da proteção ambiental.

O que este estudo mostra

Os resultados indicam que iniciativas de gestão de resíduos em ambientes costeiros podem gerar benefícios ambientais múltiplos, conectando:

• conservação da biodiversidade
• economia circular
• mitigação das mudanças climáticas
• proteção de ecossistemas estratégicos

Além disso, o estudo contribui com dados técnicos que podem apoiar políticas públicas de gestão de resíduos e estratégias climáticas, alinhadas a compromissos internacionais como o Acordo de Paris e à Política Nacional sobre Mudança do Clima.

Leia o estudo completo

Este artigo apresenta um resumo dos principais resultados da pesquisa.

📄 Para conhecer a metodologia completa, os dados detalhados da análise gravimétrica dos resíduos e os cálculos das emissões de gases de efeito estufa, acesse o estudo na íntegra:

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